domingo, 27 de março de 2011

Pensando na abrangência de Mc 1.9-12


As vezes precisamos voltar ao início dos passos de Jesus para reavaliar nossa caminhada.
O que Deus pretendia desde o princípio, com tudo o que criou?
      No livro de Gênesis encontramos Deus criando todas as coisas do nada. Poderia dizer que Ele se diverte ao realizar seus desenhos e formas na criação. Ao final do sexto dia Ele está contente e satisfeito com "tudo quanto fizera...". Ele achou tudo muito bom! É possível imaginar o prazer de Deus nas palavras de Moisés. É possível imaginá-lo sorrindo com o que vê. E o foco é sua obra prima, sua criatura perfeita e amada chamada homem. Ali vemos o Soberano Criador feliz por ser amigo de sua criatura. Ele se encontra com ela diariamente para uma boa conversa sobre a vida. E assim foram bons dias perfeitos, até que o homem virou as costas para Deus por causa de seu estômago, por causa de sua curiosidade, por causa de se ego, por causa de sua desconfiança. E então deixa o jardim que havia sido preparado nos sonhos desenhos do Criador especialmente para ele. 
     A partir deste ponto é legitimos perguntar sobre as pretenções do Criador. O que foi feito de seus sonhos? Suas alegrias com a criatura e criação? Sua obra falhou e sua arquitetura para a História se desperdiçou?
     O que vem seguida é o que chamamos de história, história da humanidade (caída, pois é a única condição que restou). E é exatamente por este fato que por mais longe que nossos olhos possam regressar na História, jamais será distante demais para não se sencontrar religião. Isto talvez explique o fato de documentários e matérias de revistas sobre religião, normalmente sugerem seus quadros como "a procura de Deus", "em busca de Deus", assuntos do tipo. A razão é por ser justamente este o maior assunto nas mais diversas religiões ao longo da história. E esse tem sido também o senso comum entre as pessoas ao pensarem a respeito de religião, isto é, "estamos a procura de Deus"; que estamos tentando fazer contato com Deus desde o início.
     Este pensamento parece interessante, e pode ate sugerir fazer algum sentido, mas suas implicações são perigosas. Pois, uma vez que somos nós que o buscamos, nós que tomamos as iniciativas de nos relacionar com Ele, de o encontrar, então a conclusão óbvia é que Ele tem se feito difícil e indesejado se relacionar com os homens. A criatura caída se torna a autora do relacionamento e o amoroso Criador o dificultador. Nós somos os "mocinhos" da história ao estilo Hollywood, tentando descobrir os segredos do universo e salvá-lo, se possível, da bagunças que Deus tem feito no mundo - Tsunamis, terremostos e tudo mais. Assim o homem prefere se ver. Como C. S. Lewis sugere para sua época: Deus foi colocado no banco dos réus.
     Mas não é assim na Bíblia. Não é este o pensamento de religião revelado nas Escrituras. O "projeto Édem não foi abondonado". A história que segue a saída do homem daquele jardim é dramática, intensa e severa, ao revelar um Deus que conduz evento após evento numa busca apaixonada por sua criatura... Seu povo. Na saída de Adão e Eva, Deus já havia sugerido tudo o que haveria de fazer pelos seus. Ele os cobriria após um sacrifício. A esta história damos o nome de Antigo Testamento, capaz de registrar o Criador se aproximando de seu povo e anunciando um retorno definitivo ao lar.
     Este anuncio encontra toda realização na obra de Jesus na Terra. E isto começa aqui no registro de Marcos. 
"...e por João foi batizado..."
     Precisamos observar com cuidado os passos de Jesuz aqui e entender o coração do Deus, e como ele ainda pulsa pela humanidade. A começar pelo batismo de Jesus (v.9). Porque Jesus se batiza?
     É um grande choque para todos os que viram isto. Nos relatos de Mateus, por exemplo, o próprio João Batista enfreta grande dificuldade com o pedido de Jesus. Ele diz; "eu não posso fazer isso. Não faz o menor sentido". João sabia que o Antigo Testamento havia, por sentenas de anos, profetizado que o Senhor chegaria no mundo para trazer julgamento e salvação. E Marcos relata nos versos 2 e 3 exatamente as profecias de Isaías e Malaquias que falavam a respeito disto: "Deus virá dar salvação e condenação", e que João Batista prepararia esse caminho. Era por isso que as pessoas estavam se batizando. Elas reconheciam que am pecadoras e precisavam de perdão, pois o juíz está por vir. A pregação de João era radical nesse sentido, ao anunciar até para judeus que eram pecadores de tal maneira quhe estavam fora do povo de Deus. Portanto, qualo sentido de Jesus ser batizado?
     Uma das características mais marcantes do evangelho de Marcos é sua intensão em apresentar Jesus como o Senhor e o Filho de Deus (v.1). Assim, ao relatar a inauguração do ministério de Jesus, onde seria natural de pensarmos que ele simplesmente salvaria os batizados e condenaria os demais, Marcos nos conta que o Senhor se curva para ser batizado no rio Jordão. Isto tem sido explicado de diversas maneiras. Mas certamente nenhuma será mais suficiente do que o esclareciento de que, ao se batizar, Jesus estava mudando a realidade das coisas, cumprindo as expectativas de Deus com relação ao juízo e salvação.
     Para ficar mais claro, precisamos qual era o real sentido do batismo joão e para as pessoas que ali estavam sendo batizadas. O batismo ali era mais do que o mero reconhecimento de que uma pessoa era pecadora e estava arrependida. O batismo público daquelas pessoas refletia a resposta que cada um estava dando à pregação de João. Aquelas pessoas pessoas estavam declarando crer que Deus estava para "mexer definitivamente no mundo" trazendo julgamento e salvação. Essa era a confissão de cada um batizado ali, de que criam que as promessas de Deus se cumpririam naquele momento; de que a plenitude dos tempos havia de fato chegado... e o julgamento se aproxima. 
     Portanto, quando Jesus diz a João: "me batize!", ele está dizendo que vai cumprir toda a justiça de Deus, e que nesse momento da história, em que Deus visita o mundo em carne e osso, ele vem debaixo da ira do Criador. Jesus se batiza, não como pecador, mas como o Cristo e Rei que é, em quem, neste momento, todas as convergem e uma nova criação é inaugurada. Todavia seu batismo anuncia que vem sob juízo de Deus, para que seus propósitos se cumpram (2Co 5.20-21). Ele vem sob julgamento que é para nós, e revela o faro de Deus estar agindo no mundo, e ao agir, seu filho assume o peso do juízo.
"...viu os céus se rasgarem..."
     Contudo, este evento ainda se completa com alguns acontecimentos. Enquanto Jesus é batizado algo acontece que revive quadros relevantes no Antigo Testamento. Os céus se rasgam e o grito de socorro do profeta Isaías é atendido aqui: "ah, se os céus fendessem e o Senhor descesse!". Esta é a única possibilidade de esperança para o homem que abandonou o jardim: que os céus se abram e Deus toque os homens... Que os céus se rasguem e Deus desça. Este momento, por si só, declara que o instante definitivo chegou em que Deus colocorá as coisas em ordem.
"...o Espírito desceu sobre ele como pomba..."
     Não há como não associar este movimento à pomba que traz o ramo verde e anuncia o fim do dilúvio nos tempos de Noé. A justiça divina já havia se cumprido, e uma nova criação estava por iniciar. Mas as associações devem ir mais além. Observe que, no texto, Jesus ainda está dentro d'água quando o Espírito paira sobre aquele lugar. Assim foi na criação. O Espírito pairava sobre as águas, antecedendo a realização dos sonhos de Deus, sua criação, a vida. No relato de Marcos, a cena nos mostra que Jesus esta recriando o mundo, fornecendo um novo começo, e sua obediência é por onde ele começa.
"...este é meu filho amado em quem me comprazo..."
     No verso 11 as palavras do Pai ecoam a mensagem do Sl 2: o mundo não quer o Filho; o mundo quer matar o Filho. Mas Deus diz que ainda que o mundo se rebele, Jesus é o Rei escolhido para reinar eternamente. Neste momento há um reflexo o prazer que havia no jardim. Neste instante, precisamente na hora em que Cristo publica o primeiro passo em assumir sobre si o juízo de Deus, o Pai diz estar feliz. O Pai está em deleite pela decisão do Filho, pois contempla as palavras de Isaías 42: "Pus sobre ele o meu espírito, e ele promulgará o direito aos gentios"
     O Criador pode sorrir novamente, pois a obediência do Filho trará sua criatura de volta para Ele. Este evento nos mostra que o projeto Édem não fora abandonado. Deus continua agindo nomundo e na História. Ele quer sua criatura devolta. A nova criação nos mostra que Ele não desistiu de nós, mas está nos buscando, está a nossa procura.
     Por fim, Jesus nos mostra que sua pregação anuncia o evangelho de Deus e não do homem. Nossas provisões não vão nos conduzir a Deus - só nos farão caminhar em círculos no deserto. Precisamos depender radicalmente das intensões e iniciativas do Pai no Filho, por nós. Deus está buscando seus filhos através da obediência de Cristo. Deus fez o que seria impossível ao homem. E construiu uma ponte entre os céus e os homens.
     Existem boas novas dizendo que o Deus Emanuel chegou em Cristo. Mas precisamos reagir com arrependimento e alegria. 
       Digam se é possível comtemplar o que Cristo fez por nós e continuarmos nossa semana da mesma forma.
     A verdadeira religião é voltarmos para Deus e vermos seu sorriso acontecer novamente como foi no início. Desfrutando do seu orazer e glória que estão recriando todas as coisas para a felicidade de seu povo. O que Jesus fez em algum lugar do rio Jordão repercute aqui e agora para voltarmos ao Criador. Para termos esperança e um novo começo; uma nova realidade, uma nova vida, um novo sorriso compartilhado com Aquele que nos ama tanto, desde o começo de tudo.
Is 43.6-7: "Trazei meus filhos de longe e minhas filhas das extremindades da terra... Os que criei para minha glória, e que formei e fiz".

sexta-feira, 25 de março de 2011

Espiritualidade Diet, Light e Zero

O jejum já não é popular para o cristianismo contemporâneo. Não seria uma grande surpresa se descobríssemos que nossos filhos pré-adolescentes nem sabem do que se trata. Pois ai está um assunto mal compreendido, mal divulgado, e, por isso – ouso dizer – certamente mal praticado. A curiosidade é notar que, paradoxalmente, nunca se falou e se empreendeu tanto esforço em dietas, regimes e educação alimentar como nas últimas décadas. Alimentos light, diet e zero (sem deixar de mencionar os mais recentes free e low) preenchem as prateleiras e geladeiras dos lares preocupados e empenhados com a saúde/estética de seus habitantes. Novos hábitos, medidas e até determinadas abstinências são formadas diariamente ao redor da mesa para a glória de um corpo melhor, mais belo. Afinal, jamais foi difícil para o homem se amar... Se amar demais.
Talvez isso explique a impopularidade do jejum comparado à democracia das dietas: a motivação e o alvo. Com as dietas, os alimentos diets e Cia, perdemos os doces e sabores dos alimentos por apego de nosso corpo. Com o jejum nós perdemos o alimento todo por amor da glória de Deus. Esta opção pode parecer demais para nossos dias se tivermos de compará-la com aquela. Pois estamos sempre ocupados demais, com as mãos repletas de coisas e ambições que nos dizem respeito (Mc 4.19). Se for para renunciar alguma coisa, que seja para o nosso bem. Somos nosso maior objeto de valor e assunto predileto de nossa ocupação.
É assim, tanto amando a nós mesmos que desprezamos a glória de Deus em nossa semana, em casa, e ao redor da mesa. Não conseguimos desfrutar prazer em Deus além de nosso ego e cuidado próprio. Capazes de nos comprometer com regimes alimentares, mais reticentes em ter tempo com Deus, acabamos por adorar nossa "corporalidade" e conquistamos uma espiritualidade diet, light, zero.
Precisamos valorizar a presença de Deus e sua glória ao ponto de estarmos ocupados e disponíveis a elas. Ao ponto de sentirmos saudade dEle durante numa terça-feira qualquer, enquanto cuidamos de nossas vidas... enquanto trabalhamos, pensamos, comemos ou deixamos de comer. Piper diz que "o maior inimigo da fome por Deus não é o veneno, mas a torta de maça. Não é o banquete dos perversos que enfastia nosso apetite pelo céu, mas o infindável beliscar à mesa do mundo e do ego. Não é a obscenidade do vídeo, mas o chuvisco da trivialidade do horário  nobre que nós sorvemos todas as noites". Assim, é mais fácil sermos impedidos de banquetear à mesa do amor do Senhor por envolvimento com suas dádivas do que por conflitos com seus inimigos.  É um pedaço de terra, uma junta de bois, é uma esposa (Lc 14.18-20). São os "deleites dessa vida" que sufocam nosso desejo por Deus (Lc 8.14).
A saúde, a beleza, o corpo, os prazeres, as coisas e bens, nosso tempo e estômagos, tudo nos é concedido por Deus para a sua glória antes de qualquer outro fim (1Co 10.31). A compreensão que nos falta é que glória de Deus diz muito respeito à nossa alegria, real alegria. Se crermos nisto, poderemos reconquistar uma espiritualidade saudável, doce, capaz de abdicar mais do que a açucares e calorias para o bem de nosso corpo, mas a nosso ego por amor e saudade do Pai, de sua presença e de sua Palavra, o pão da vida. Que a glória de Deus seja mais desejável que os deleites da vaidade. Que tenhamos fome por Deus mais uma vez, como já foi um dia.

quinta-feira, 17 de março de 2011

Satisfação e Paz


Que influência nosso conhecimento de Deus tem em nossas vidas... na prática?


Não é raro encontrar pessoas curvadas diante das dificuldades e ameaças do mundo contemporâneo por amor de suas seguranças e confortos. São pessoas que buscam paz e satisfação nas arquiteturas e provisões que elaboram penosamente com as próprias mãos. Mas o resultado é frustrante. Vêem-se constantemente desencorajadas e vulneráveis, pois não possuem nada mais a proteger do que o bem estar da própria vida. E a vida é mesmo frágil! – deveras delicada diante das circunstâncias. Precisamos, todos nós (humanos), de uma medida considerável de alívio na ansiedade e tensão dessa empreitada que é manter a vida. Necessitamos de paz. Todos queremos um pouco de paz para viver.
Por isso o Evangelho é tão especial, único e apropriado. Ele promete isto... paz (Jo 14.27), e paz com Deus (Rm 5.1). Os que conhecem a Deus podem se satisfazer com ele. E a verdade é que “não existe paz que se compare à daqueles que têm a mente cheia da plena certeza de que conhecem a Deus, que Deus os conhece e que esta relação lhes garante o favor de Deus por toda a vida, na morte e eternamente”. Esta é a paz que Sadraque, Mesaque e Abede-Nego experimentaram e compartilham conosco. E ela que explica suas cabeças erguidas e seus tornozelos firmes diante do ultimato de Nabucodonosor.
Em Dn 3.16-18 temos uma lição pra vida de satisfação e coragem de quem está em paz com Deus: “Ó Nabucodonosor, não precisamos nos defender diante de ti.” (não há pânico!) “Se formos atirados na fornalha em chamas, o Deus a quem prestamos culto pode nos livrar, e ele nos livrará de suas mãos, ó rei.” (com cordialidade, mais inconstetáveis) “Mas se ele não nos livrar, saiba, ó rei, que não prestaremos culto aos seus deuses nem adoraremos a imagem de ouro que mandaste erguer” (Não importa! Não há nada que faça diferença para seus corações). Vivos ou mortos, estes jovens demonstram coragem e satisfação de quem conhece seu Deus.
O mundo nunca precisou estar insento de dificuldades. Nossas vidas não necessitam de ausência de problemas. Mas todos nós necessitamos do conhecimento de Deus que nos deixe em paz diariamente.

sexta-feira, 4 de março de 2011

Jeito de viver

Após chamar a multidão e os discípulos, disse: Se alguém quiser vir comigo, negue a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me.” (Mc 8.34)

Quantas decisões tomamos ao longo de cada dia? Quantas escolhas fazemos a cada hora que passa? Em que todas elas se baseiam? Se considerarmos desde as opções cotidianas mais simples até as mais densas, estamos desafiados a conseguirmos contá-las. Inúmeras decisões, diversas escolhas e várias opções antecedem cada atitude que priorizamos. E todas, todas elas, possuem referência em algo, uma verdade que é real pra nós.
Mesmo que não tenhamos consciência, estamos escolhendo em todo instante, a cada “movimento” seguindo alguma referência para nossas decisões. É assim que levamos a vida, interagimos com nossa própria realidade e formamos nosso jeito de viver.
A verdade é todos estamos sempre seguimos algo, ou alguém. As decisões que tomamos diariamente têm como pano de fundo, invariavelmente, aquilo que acreditamos acerca da realidade, da vida e de tudo o mais. Cada um de nossos pensamentos e juízos tem sua origem em algum lugar daquilo que experimentamos. Somos constantemente moldados ao passo que moldamos o que é real pra nós. Pais, professores, artistas, cientistas, culturas, lugares e coisas, tudo e todos, nos influenciam até hoje. Formam nossos “princípios” e perfazem nossas escolhas, nosso jeito de viver. Ninguém pode dizer, com legitimidade, que não é influenciado. Todo mundo segue alguém. A questão é a quem seguimos.
Em Mc 8.34 Jesus não está fazendo uma declaração melancólica. Mas o glorioso convite do mais puro Evangelho de Deus. Um convite de ver e experimentar a verdadeira realidade, andando por um caminho que é real, e adquirindo um jeito de viver que vem de Deus. Quando procuramos propositadamente viver do jeito de Jesus algo profundo começa a acontecer. Somos convencidos de ser esta a melhor maneira de viver, pois tem origem em verdades confiáveis a respeito do que é o mundo, do que é a realidade, e de quem somos nós. Seguir Jesus é viver seu jeito pra vida; ouvir seus ensinamentos é compreender a existência; obedecer e amá-lo, é estar em sintonia com a mais crua realidade de como as coisas são... ou de como elas devem ser, segundo o amoroso Criador.
Esse é o convite da cruz. Esta é a oferta de Jesus. Ser Ele nossa realidade, e quem influencia nossas escolhas, decisões, valores e opções na vida – todas elas! Jesus nos chama à um estilo de vida que resgata a arte do Édem, e ecoa no novo céu e na nova terra. Mas é para hoje, aqui e agora, um “jeito” de viver. “...segue-me!”.