terça-feira, 25 de setembro de 2012

OUÇA OS GRITOS DO ESPÍRITO E NÃO OS SUSSURROS DA CARNE



“Pois não o faço o bem que prefiro e sim o que detesto” (Romanos 7.15)
                                                            
Se você ama a Jesus, você entende o apóstolo Paulo quando ao dizer que teve sérias dificuldades em fazer o bem que preferia, mas com facilidade fazia o mal que odiava. Preferimos o bem, pois somos filhos de Deus; realizamos o mal, pois ainda lidamos com a carne. Isto é um esquema, não uma opção! Mas o importante de perceber é que todo que é nascido pelo Espírito de Deus conta com este mesmo Espírito para guiá-lo a Deus e à santidade. O Espírito Santo declara e faz guerra ao pecado dentro de nós (Gálatas 5.17). Todavia ele não trabalha sozinho, outrossim todo cristão é responsável na luta contra o pecado. É nesse ponto que temos a oportunidade, e é aqui que caímos... Repetidamente e com a deliberação de nossas paixões, consentimos com o pecado.

Quando consentimos, é porque a alma foi seduzida pela carne, e nossa vontade se fez mediadora do processo do pecado. É quando a mente é vencida em seu dever, e a consciência fracassa junto com as afeições que, atraídas e confundidas pela tentação, diz “sim, eu quero!”, mesmo para aquilo que odiamos como crentes nesse mundo. Aceitamos o que o Espírito Santo rejeita. Essa é a verdadeira batalha espiritual: a luta da consciência santa (auxiliada pelo Espírito e pela Palavra), contra o consentimento carnal. Essa guerra é a guerra de todos os santos.

Como escritor Kris Lundgaard considerou, essa relutância interior no crente não é apenas uma simples oposição ao pecado como algo vil: “Em cada pensamento, palavra, ação e sentimento pecaminosos, a Graça de Deus luta contra o consentimento da vontade”. O Espírito grita a cada sussurro consentido da carne. Precisamos abandonar a loucura de ignorar essa voz.

Lutar contra a carne não nos sai barato, ainda que ajudados pelo Espírito. Mas é isto ou o caminho de morte do consentimento para o pecado. É isto ou a tristeza do Espírito e nossa também. Pois somos nascidos de Deus e odiamos o pecado. Mas a carne não descansará em sugerir e se articular aos nossos olhos. Cabe a nós darmos atenção ao Espírito que está em nós, e às palavras que ele inspirou, e quebrar o silêncio da consciência consentida e maculada.

Quando milagres acontecem?



"Os discípulos perguntaram: 'Mas onde vamos encontrar comida suficiente para todos neste lugar deserto?' E Jesus perguntou: 'Quantos pães vocês têm?' "

É maravilhoso observar a variedade dos milagres de Jesus. Cada um, ao mesmo tempo em que aparentemente tão ocasional, tão singular. Sem formatos previsíveis, sempre impressionantes. Mesmo na ocasião da segunda multiplicação de pães e peixes, não podemos concluir uma repetição de seu significado. É único, especial, e sobrecarregado de mensagem. 

Ao olhar com o mínimo de atenção para a movimentação inicial do capítulo 8 do evangelho segundo Marcos, temos muito a ver e compreender, a reavaliar e reconsiderar, sobre o que é a missão cristã, a fé, o milagre, e o discipulado. Afinal, o que realmente é ser discípulo? Seria o mesmo que o foi nos dias de Jesus? Estas perguntas tem seu lugar em nossos dias devido aos rumos que a identidade evangélica tem trilhado.

Um Deus bom, amigável e acessível tem sido argumentado através de sugestões religiosas cada vez mais pragmáticas e caprichosamente exigentes com relação à própria divindade e seu modo de agir. De fato, o Deus bíblico é paterno, fraterno, e todo disponível em seu Filho. O problema surge quando o cristianismo o limita a estes atributos, reduzindo o soberano, criador, juiz e senhor de tudo e sobre todos, a um mordomo, “amigão” e colega de quarto, incapaz de contrariar seus amos. Antes, sempre pronto a seus pedidos, suas necessidades, suas orientações. Mas esta constatação nega o discipulado desde a semântica da palavra “discípulo” até a proposta que vem da autoridade do Senhor. Ser discípulo, em primeira e última instância, é seguir... seguir um mestre específico. Estar onde ele está, ouvir o que ele diz, olhar o que ele apontar, fazer o que ele mandar e ir aonde ele for. 

Por certo, esta verdade estava sendo ensinada nesta ocasião do milagre bíblico. Os discípulos já estão com Jesus. Eles o seguem geograficamente. Mas precisam aprender a olhar para onde Jesus olha. E o mestre vê gente, vê fome, vê responsabilidade e oportunidade de serviço e compaixão. Está é a ocasião do milagre! O lugar onde Jesus está, e se manifesta sensível às pessoas ao derredor, para quem ele se dispõe a responsabilizar seus seguidores. 

Há grandes questões que devem nos assombrar ao observar esta cena.  Se nós nos consideramos discípulos de Jesus, por que passamos tanto tempo e energia de nosso relacionamento com Ele olhando para nós mesmos? Em nossa ocasião atual, para onde Jesus está olhando? Qual a oportunidade que temos de ter compaixão por outros e honrar os focos de Cristo e do Reino hoje, onde estamos e com o que temos? Responder estas perguntas pode nos fazer reavaliar o que é ser cristão, no que de fato consiste o discipulado. 

A igreja evangélica, o cristianismo contemporâneo, e nós, precisamos entender que o milagre de Cristo é motivado por sua compaixão por gente, e ocorre com a participação de seus discípulos, dispostos a olhar para onde Jesus está olhando, e de entregar em suas mãos aquilo que ele nos tem dado a serviço de outros.  

terça-feira, 28 de agosto de 2012

Ainda falando sobre Fé




“Ao entrar no povoado, dez leprosos dirigiram-se a ele. Mesmo de longe gritaram: Jesus, Mestre, tem piedade de nós! Ao vê-los, ele disse: Vão mostrar-se aos sacerdotes. Enquanto eles iam, foram purificados” (Lc 17.12-14).

Os milagres de Jesus registrados nos evangelhos invariavelmente no
revelam o Filho que veio levar sobre si dores, aflições e transgressões de muitos,
devolvendo saúde, paz, perspectiva e dignidade. Cada milagre permite que um
facho de luz do céu clareie a percepção humana de que o Logos de Deus se manteve
interessado em restaurar a verdadeira humanidade às pessoas que ele encontrou.
Devolvendo suas vidas à mera, porém boa, normalidade.

Pode-se perceber tudo isso na ocasião da cura dos dez leprosos. O Mestre
devolve com graça e capacidade mais do que a saúde que um dia aqueles homens
experimentaram, lhes restaura a civilidade. A vida social é possível novamente. Dez
anônimos leprosos podem retornar à suas casas, abraçar novamente suas esposas e
filhos. Podem novamente ir ao mercado, e passear pelas ruas do bairro. Eles podem
mais uma vez ir e vir; podem ter e ser. Tudo isso porque Jesus passou por perto num
certo dia e eles creram que se tratava de uma oportunidade absoluta e única. “Jesus,
Mestre! Tem misericórdia de nós!”.

Este episódio mostra que Jesus tem poder e interesse pra sarar nossas vidas,
por mais abrangentemente arruinadas que possam estar. Entretanto, também nos
ensina sobre a vitalidade da fé que agrada a Deus. Pura e simples. Sem ponderações,
nem pré-requisitos. Aos dez somente lhes coube expectativas maiores – em muito
superiores à suas circunstâncias –, e obediência. Nem mesmo promessas
justificaram a fé daqueles desaventurados leprosos. Apenas convicção de que Jesus,
aquele sobre quem ouviram surpreendentes notícias, o Amor, estava passando por
ali.

Quantas vezes não temos esperado que seja Cristo quem grite por nós, e
chame nossa atenção com sinais e benção particulares tão caprichosamente
reivindicadas? Com isso perdemos a oportunidade da Sua presença a cada dia, que
espera de nós confiança, e não exigências. Que espera que aprendamos o caráter
confiável do Mestre. Que espera que aprendamos a fé destes dez. Que pratiquemos
melhor a expectativa que Jesus nos permite, a convicção pelo que dele ouvimos, e a
obediência ao que ele nos fala. E seu cuidado certamente nos seguirá,
surpreendentemente, antes mesmo que dermos muitos passos de pura e simples fé.

quinta-feira, 3 de maio de 2012

FÉ: DESESPERO, EXPECTATIVA E OBEDIÊNCIA


“Toma agora o teu filho, o teu único filho, Isaque, a quem amas, e vai-te à terra de Moriá, e oferece-o ali em holocausto sobre uma das montanhas, que eu te direi. Então se levantou Abraão pela manhã de madrugada, e albardou o seu jumento, e tomou consigo dois de seus moços e Isaque seu filho; e cortou lenha para o holocausto, e levantou-se, e foi ao lugar que Deus lhe dissera. Ao terceiro dia levantou Abraão os seus olhos, e viu o lugar de longe. E disse Abraão a seus moços: Ficai-vos aqui com o jumento, e eu e o moço iremos até ali; e havendo adorado, tornaremos a vós. E tomou Abraão a lenha do holocausto, e pô-la sobre Isaque seu filho; e ele tomou o fogo e o cutelo na sua mão, e foram ambos juntos. Então falou Isaque a Abraão seu pai, e disse: Meu pai! E ele disse: Eis-me aqui, meu filho! E ele disse: Eis aqui o fogo e a lenha, mas onde está o cordeiro para o holocausto? E disse Abraão: Deus proverá para si o cordeiro para o holocausto, meu filho”. (Gn 22.2-8)

          Quanto mais  observo  esta cena tão dramática, mais sou convencido a rever meu conceito de fé. E por incrível que pareça, não necessariamente pela força desse Abraão filho de Deus, mas pela fraqueza de Abrão pai de Isaque. É fácil olhar para Abraão como um homem que praticamente “inventou” o exercício da fé. “Abraão, o herói da fé... Abraão, o pai da fé!”. Mas não é assim que, hoje, percebo este episódio nem este homem. As falas de Abraão e sua movimentação parecem sugerir algo mais profundo e mais humano do que uma fé inabalável e robótica. De alguma forma esse caso diz que fé tem muito a ver com desespero e expectativa do que certezas e seguranças.
          Observe que em meio às grandes porções das narrativas de Gênesis, o autor descreve esta porção em quadros menores, de modo que cada detalhe está carregado de significado. A cena se inicia com o estranho pedido de Deus, que cuida de destacar algo: “toma teu filho... a quem amas”. É como se Deus estivesse dizendo a Abraão que sabe muito bem o que está pedindo. Em seguida, Abraão tem tempo de passar a noite com aquelas palavras. Penso que é aqui que começa o desespero. Pois, quanto mais Abraão calcula a dimensão da loucura e da dor do que Deus havia exigido, mais ele reafirma sua obediência. Assim, convicção e desespero caminham juntos dentro de seu peito.
          O próximo quadro nos mostra Abraão preparando com cuidado tudo que precisará para cumprir o pedido divino e por último, foi cortar a lenha. Consegue imaginar como esse pai está fazendo isso? Cada pedaço de madeira em sua mão significa a morte de seu garoto! Quanta incompreensão um coração consegue suportar? Certamente Abraão explorou os limites da ansiedade. Após isto, ele foi!
         O que nos é relatado a seguir permanece absolutamente intrigante. Quando vê Moriá, após uma desapressada caminhada de três dias, ele pára seus empregados e diz que logo voltarão. Prestaram atenção nesta palavra? É um plural. Abraão está dizendo que não voltará só. Na sequência Isaque o questiona sobre o cordeiro a ser sacrificado. Então Abraão fala algo novamente intrigante. Com todo o provimento para sacrificar o filho, com passos obedientes e firmes ao local de holocausto, é que ele foi capaz de responder: “filho, Deus proverá um cordeiro”. Como assim? Deus foi claro, Abraão sabe disso. É exatamente por isso que ele está ali com seu filho. Neste momento é que percebo o desespero em meio à obediência. E isto é fascinante!
          Abraão não está fazendo outra coisa a não ser dizer a seu filho que não entende aquela situação, mas que conhece seu Deus, sabe que ele é digno de confiança, e que ele é bom. O que o desespero de Abraão é capaz de nos ensinar a respeito da fé, é que a obediência não pode ser justificada por  garantias esclarecidas. Ensina-nos que ter fé é, ainda que não compreendamos, ter toda expectativa em Deus. Ensina-nos que a fé pode até nos levar ao desespero, mas será ao mesmo tempo em que nos levará à presença de Deus. Ensina-nos que o caminho da obediência ao Senhor pode sim, ser atravessado com passos trêmulos como os nossos, mas que parte rumo a um Deus que nos considera, no começo, durante e fim da jornada. que sempre será uma jornada de fé.