quinta-feira, 17 de abril de 2014

A SUBVERSÃO DA RESSURREIÇÃO, PARTE 1

MADRUGADA

Os evangelhos narram os dias após a morte de Jesus, registrando eventos absolutamente subversivos às expectativas dos discípulos. Determinadas cenas no relato de Lucas nos mostram como os céus surpreendem a experiência de algumas pessoas nos dias seguintes à ressurreição. Jesus subverte, surpreende, confronta, esvazia e preenche ao aparecer ressurreto. Mais do que pelo aterrador fato de estar vivo, de pé e respirando após sua morte, pelo que fala e faz. As circunstâncias, os locais, os momentos e as pessoas – principalmente as pessoas –, tudo altamente significante. Em momentos distintos do dia, Jesus aparece em lugares específicos. Isto porque seus discípulos são também distintamente específicos, e assim é que lidam com sua vida e morte.

A primeira cena envolve uma madrugada e, pelo menos, duas mulheres. Uma delas, Maria Madalena. Elas levam consigo especiarias perfumadas de essências de flores, óleos e aloés, ao sepulcro para cuidarem do corpo de Jesus. Esta atitude demonstra veneração tal que não seria de todo exagero entender o que fazem como litúrgico, cúltico e adoração. Elas compreendem o que estão fazendo, sabem exatamente o que fazer com Jesus naquele sepulcro. Não demonstram dificuldade para lidar com a morte de Jesus. Em reverente aproximação, providenciam aromas e tecidos para honrarem Jesus com devoção sincera.

Todavia, ao chegarem ao sepulcro, são surpreendidas: a porta rochosa do túmulo foi removida e o sepulcro está vazio; são confrontadas: anjos lhes aparecem e questionam: “mulheres, por que buscais entre os mortos aquele vive?”; suas expectativa foi subvertida: Jesus está vivo! De modo que já não há sentido algum no que foram fazer ali. Seus preparativos “litúrgicos” não possuem mais objeto. Suas mãos são esvaziadas de seus símbolos religiosos que se dirigiam a Jesus, o morto, para serem preenchidas com a mais sublime responsabilidade: anunciar, em primeira mão, que o Mestre está vivo.

Assim é a ressurreição naquela madrugada, subversiva. Não deve ser diferente a nós. Em nossa sinceridade devocional, podemos alçar empenho religioso e aproximarmos de Jesus com respeito e adoração. Isto não parece difícil. É fácil lidar com Jesus como se fosse um memorial, um ícone, ‘‘um túmulo’’. É simples adorá-lo e considerá-lo quando ele se encaixa nos meus moldes de abordagem, na minha agenda litúrgica. Quando eu sou quem determino a hora e o lugar de me aproximar de Jesus, provavelmente, é porque estou lidando com um Jesus morto. A ressurreição esvazia nossas mãos religiosas, e nos confronta ao nos apresentar um Deus realmente vivo para relacionamento. Um túmulo vazio, pois Cristo está de pé, caminhando e respirando. De sua própria boca podemos ouvir uma nova missão.


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