quinta-feira, 17 de abril de 2014

A SUBVERSÃO DA RESSURREIÇÃO, PARTE 2


TARDE

Lucas 24.13-31

A segunda cena da ressurreição envolve um pôr-do-sol, dois discípulos cabisbaixos e um café da tarde. Estes homens caminhavam desconsoladamente a caminho da aldeia de Emaús. Andavam e conversavam chorosamente sobre o infortúnio da morte de Jesus. Para eles, no calvário foram crucificados também os sonhos e as expectativas mais palpitantes, que outrora arderam o coração, de ver o reino dos Céus na terra surgindo finalmente. Mas agora, tanto reino quanto céus pareciam ter sido soterrados desde a última sexta-feira.

A constrição destes discípulos revela a sinceridade de seus corações ao sentirem por Jesus. Eles verdadeiramente o amavam, e absolutamente natural o lamento por sua ausência. Em seus corações um largo caminho foi aberto para a dor e pranto por Jesus. Contudo, deixaram o sofrimento afogar a lembrança e atordoar a esperança. É sempre um risco no luto. A dor daqueles homens falou significativamente mais alto que suas expectativas, memórias e fé, para crer nas promessas de Jesus. Pois, é em meio ao caminhar arrastado em melancolia destes discípulos, que Jesus, ressurreto de entre os mortos, os alcança e puxa uma boa conversa com eles. Mas atordoados pela perda, dopados pela dor, não o percebem. Não reconheceram Jesus, e não conseguiram tê-lo de volta. 

O sofrimento tem um grande poder para desorientar nossas vidas. A dor, a perda e todos os episódios lamentáveis em nossa história, são uma grande ameaça à nossa esperança. A intensidade da angústia é capaz de abalar nossa memória e aplacar nossa capacidade de manter as expectativas e termos fé. As lágrimas do sofrimento daqueles discípulos rumo a Emaús ofuscam suas vistas e não lhos permitiram reconhecer que Jesus estava caminhando ao lado deles, e que o motivo de seu luto já estava morto.

Mas a subversão estava por vir. Jesus permanece a caminhada e, gradativa e insistentemente, relembra-os de todo o Antigo Testamento a seu próprio respeito junto a abatida memória daqueles discípulos. E ao ser convidado para estar à mesa com eles, Jesus parte o pão, oferece a seus discípulos que, então, naquele instante, o reconhecem surpreendidamente,  vendo que o mestre vive e está à mesa com eles. Jesus troca inteiramente o desconsolável caminhar dos discípulos por uma mesa de renovo e fé. Sem desrespeitar os processos de luto e sofrimento, o Mestre reconstrói suas memórias naquilo que podiam ter sólida esperança, soerguendo a razão de suas expectativas.

A surpresa daquela tarde de caminhada nos cabe muito bem. Pois o sofrimento continua a desnortear-nos, e nós, por vezes, deixamo-nos embriagar pela dor, e perdemos a razão e expectativa das novidades do Reino do Filho de Seu Amor. Jesus pode subverter nossa caminhada, substituindo nossas lágrimas por uma mesa posta de alegria e novidade. Não valorize a dor mais do que a presença daquele que cura.

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